O despejo de uma idosa de 87 anos no bairro do Retiro, em Madri, reacendeu o debate sobre a crise de habitação e o modelo de negócios imobiliários na Espanha. Maricarmen Abascal morava há sete décadas no mesmo imóvel, pagando o aluguel em dia, até ser desocupada por determinação judicial favorável à proprietária do edifício, a empresa Urbagestión Desarrollo e Inversión SL. O caso se tornou um dos símbolos mais proeminentes da escalada dos preços de locação e das disputas contratuais no país europeu.
A desocupação ocorreu na rua Alcalde Sainz de Baranda após uma série de tentativas frustradas de impedimento por parte de manifestantes. A crise habitacional espanhola é impulsionada pela escassez de oferta de moradias, pelo crescimento demográfico em grandes capitais e pelo aumento da conversão de residências em aluguéis turísticos de curta duração. Em 2025, o Conselho Geral do Poder Judicial registrou mais de 25 mil desocupações no país, em um cenário em que os preços dos imóveis subiram mais de 12% em apenas um ano.
Como opera a Urbagestión e o modelo de valorização de edifícios
Criada em outubro de 2005, durante o auge da bolha imobiliária na Espanha, a Urbagestión Desarrollo e Inversión SL — que também atua sob o nome comercial Urbagesa — define sua atividade principal na captação de investimentos rentáveis em setores como residencial, comercial e logístico. A estratégia de negócios da empresa baseia-se na aquisição de edifícios, na desocupação dos moradores, na realização de reformas estruturais e na subsequente venda dos ativos por valores mais elevados.
Apesar de transacionar ativos de alto valor, a empresa é classificada como uma microempresa e conta com apenas sete funcionários registrados. Com sede na capital espanhola e uma filial em Valladolid, a companhia está associada aos empresários Ricardo Alonso Fernández e Fernando Alonso Fuentes. A carteira da Urbagestión inclui cerca de dez edifícios residenciais à venda, a maioria localizados no centro de Madri, abrangendo desde imóveis totalmente desocupados para reforma próximos à Gran Vía — avaliados em mais de 14 milhões de dólares — até prédios com contratos de locação prestes a vencer.
A transição do contrato antigo e o aumento do aluguel
A trajetória que culminou no despejo de Maricarmen começou em 2018, quando o edifício onde ela residia foi adquirido pelo grupo Renta Corporación. Na ocasião, a empresa ofereceu à moradora a opção de compra do apartamento por aproximadamente 290 mil dólares. Como a idosa contava com uma aposentadoria mensal de 1.300 euros (cerca de 1.500 dólares), a aquisição se mostrou inviável financeiramente.
Dois anos depois, em 2020, a Urbagestión comprou o prédio e passou a exigir a atualização do valor do aluguel. Maricarmen pagava cerca de 570 dólares mensais com base em um contrato assinado por seus pais em 1956. Essa modalidade de locação antiga, originada durante a ditadura franquista, garantia valores historicamente baixos e regras específicas de transferência do direito de moradia entre parentes. Com o argumento de que o contrato original havia expirado, a proprietária passou a cobrar um valor atualizado de aproximadamente 3 mil dólares mensais, montante incompatível com a renda da moradora.
A atuação de investidores e a dinâmica do mercado imobiliário
Embora a Urbagestión argumente ser uma empresa de pequeno porte e rejeite a equiparação com grandes fundos globais de investimento, analistas apontam que a lógica operacional adotada é similar. Nas últimas duas décadas, o mercado espanhol registrou forte presença de grandes fundos internacionais, como Blackstone, Cerberus e Goldman Sachs, atraídos pela alta demanda e pela perspectiva de valorização constante dos ativos residenciais.
Especialistas e analistas econômicos observam que o mercado espanhol apresenta uma demanda aquecida que assegura rentabilidade e atrai capital estrangeiro. A sequência de 12 anos consecutivos de alta nos preços das casas intensifica a pressão sobre inquilinos em situação de vulnerabilidade social ou com rendas fixas, elevando a incidência de litígios e despejos nas áreas urbanas mais valorizadas.
Repercussão internacional, críticas da ONU e posicionamento governamental
A remoção de Maricarmen gerou forte reação de organismos internacionais e de autoridades políticas. O Relator Especial da ONU para o direito à habitação, Koldo Casla, criticou a decisão de priorizar a rentabilidade financeira em detrimento do direito de moradia de uma idosa de 87 anos com mobilidade reduzida e 50% de incapacidade. O Comitê dos Direitos Econômicos, Sociais e Culturais (CESCR) da ONU havia chegado a emitir medidas cautelares solicitando a suspensão temporária do despejo para evitar danos irreparáveis.
No âmbito político espanhol, o primeiro-ministro Pedro Sánchez classificou o caso como uma tragédia inaceitável. A ministra da Habitação, Isabel Rodríguez, afirmou que o governo de coalizão tentou aprovar legislação para proibir desocupações nessas condições e responsabilizou a administração regional de Madri por facilitar a especulação no setor. Após o despejo, a moradora foi encaminhada ao hospital e deve passar a residir com familiares, enquanto seu antigo apartamento permanece desocupado no bairro do Retiro.
Fonte consultada
Este conteúdo foi elaborado com base em informações publicadas por Bbc. Consulte a publicação original.